quinta-feira, 3 de maio de 2007

" Eu, Coisa!"

Um colaborador aqui, o poeta J. Alexandre Sartorelli (q está no orkut) fez uma analogia sobre "coisificação" do ser humano e a sexualidade, aproveitando esse caminho, fica um poema q talvez decifre um pedaço da humanidade.
O Consumismo, uma epidemia acelerada durante o desenvolvimento industrial, faz suas vítimas quando transforma pessoas em objetos, relações complexas em monólogos individualistas.

Eu Etiqueta - C. Drummond de Andrade


EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome... estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)

E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou - vê lá - anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente





6 comentários:

camila adriele disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
camila adriele disse...

é assim que o mundo se ve hoje em dia, numa epidemia de moda e consumismo.
e na minha opiniao o q mais
manipula as pessas é a tv, radios, internet, etc.
e essa rede é tao grande que eles fazem nós pensarmos no que eles querem.

maine disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maine disse...

hoje do jeito que anda as coisas muita gente não para pra pensar que nós estamos vivendo no mundo que praticamente somos manipulados pelos outros e não somos nós mesmos e sim que a autoridade quer que somos .......
por isso que há tv,rádio,internet,esses meios que faz a gente ser igual ao outro e não ser do nosso jeito.
mas não há jeito para mudar isso temos que aceita e viver assim igual aos outros dependendo disso para ser alguém.

templário .´. disse...

Olá amiga e profa. Célia... Um belo poema... Drummond sempre foi um visionário... hehe uma pergunta fica aqui... temos volta? hj existe algum caminho de volta desse consumismo e do capitalismo? temos volta da globalização? que nada mais é o foco principal da divulgação dos meios de consumo? na realidade não temos mais volta... temos hj um mundo que optou pelo capitalismo... não existe dúvida que um a um... os países cairão em seus pés... mesmo os reticentes hj... até pq hj... o Estado de Direito... não permite que impeçamos qualquer coisa que seja... ao menos nos países democráticos... vemos hj uma onda exarcebada de consumismo... que como o nome diz... consome famílias... destrói o trabalho dos educadores... endivida famílias... mas enfim... é a lei da oferta e procura... pode-se proibir? claro que não... é a democracia e o estado de direito... com seus lados excelentes... mas claro... seus lados ruins qdo fazem mau uso dela... qdo isso pode vir a acabar? talvez qdo terminarmos nosso ciclo atual... os Romanos tiveram o seu ciclo... os Celtas... a Idade das Trevas... o Renascentismo... o Iluminismo... mas enfim... hj estamos na Selva... salve-se quem puder... e quem tiver maturidade de saber viver... abraços amiga Célia... Templário .´.

Alexandre disse...

Coisas com marcas, várias, que dizem: nada.
Bjos, Psóra!