domingo, 16 de dezembro de 2007

malocas, favelas..problema antigo?

Na Letra de música abaixo, cantada como um alegre samba, se desenvolve uma crítica social, evidenciando não somente a falta de moradia, mas a falta de prestígio humano, onde vale mais quem tem mais...o "ser" não importa tanto..

Já nos trechos do poema de Drummond, percebemos que "somos diferente e queremos ser sempre diferentes" , porém, o "diferente aqui sintetiza a idéia de "superioridade" e poder..e poder sobre o quê? Quanto tempo se demora para progredir?

Uma sugestão: levante a data de criação da letra e do poema....

Saudosa Maloca

João Gilberto

Composição: Adoniran Barbosa

Se o sinhö não tá lembrado
Dá licença de contá
Que aqui onde agora está
Este ardifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assobradado
Foi aquí, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca
Construímo nossa maloca
Mas, um dia, nóis nem pode se alembrá
Veio os home co as ferramenta
O dono mandô derrubá
Peguemo todas nossas coisa
E fumo pro meio da rua
Apreciá a demolição
Que tristeza que nóis sentia
Cada taubua que caía
Doía no coração
Mato Grosso quis gritá
Mas em cima eu falei
Os home tá coa razão
Nóis arranja outro lugá
Só se conformemo
Quando o Joca falou
"Deus dá o frio conforme o cobertô"
E hoje nóis pega as páia
Na grama do jardim
E pra isquece nóis cantemo assim
Saudosa maloca, maloca querida
Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida
Saudosa maloca, maloca querida
Dim dim donde nóis passemo dias feliz de nossas vida

FAVELÁRIO NACIONAL
Carlos Drummond de Andrad
e

Quem sou eu para te cantar, favela,
Que cantas em mim e para ninguém
A noite inteira de sexta-feira
e a noite inteira de sábado
E nos desconheces,
como igualmente não te conhecemos?
Sei apenas do teu mau cheiro:
Baixou em mim na viração,
Direto, rápido, telegrama nasal
Anunciando morte... melhor, tua vida.
...
Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
Medo só de te sentir, encravada
Favela, erisipela, mal-do-monte
Na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
Nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
E culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
Custa ser irmão,
Custa abandonar nossos privilégios
E traçar a planta
Da justa igualdade.
Somos desiguais
E queremos ser
Sempre desiguais.
E queremos ser
Bonzinhos benévolos
Comedidamente
Sociologicamente
Mui bem comportados.
Mas, favela, ciao,
Que este nosso papo
Está ficando tão desagradável.
Vês que perdi o tom e a empáfia do começo?
...
8. Guaiamu

Viemos de Minas, sim senhor,
fugindo da cerca braba lá do Norte.
Em riba de cinco estacas fincadas no mangue
a gente acha que vive
com a meia graça de Deus Pai Nosso Senhor.
Diz - que isto aqui tem nome Nova Holanda.
Eu não dou fé, nem sei onde é Holanda velha.
Me dirijo à Incelência: Isso é mar?
Mar, essa porcaria que de tarde
a onda vem e limpa mais ou menos,
e volta a ser porcaria, porcamente?
Vossa Senhoria tá pensando
que a gente passa bem de guaiamu
no almoço e na janta repetido?
Guaiamu sumiu faz tempo.
Aqui só vive gente, bicho nenhum
tem essa coragem.
Espia a barriga,
espia a barriga estufada dos meninos,
a barriga cheia de vazio,
de Deus sabe o quê.
Ele não podendo sustentar todo mundo
pelo menos faz inchar a barriga até este tamanho.

2 comentários:

Fernando Furlanetto Galuppo disse...

Bossa Nova com Drummond! Espetáculo!!=]

Gisele disse...

Seres humanos que pensam que ser diferentes é andar igual me irritan