quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Da geração do psico-tapa à geração do diálogo confuso

Venho de uma geração que não conheceu nem o ECA nem os Direitos Humanos.
Nossa geração foi marcada pelo autoritarismo, onde patriarcas e militares governavam nossas casas e nossas vidas. As surras eram costumeiras, muitas nem entendíamos. Pais nos agrediam, professores e colegas também. Tínhamos limites físicos, reais, que nos assombravam..Os mais rebeldes conseguiam escapar e burlar a vigilância, porém, cedo ou tarde, aderiam ao sistema único de ensino. Engolíamos literalmente o choro e quando alguém se queixava, alguém também dizia, que na sua época havia sido pior..
Tínhamos que nos casar, que ter filhos, que trabalhar e sermos iguais aos nossos antecessores..Nessa época, escola não era tão importante quanto trabalhar
Perdi muitos colegas, alguns porque fugiram dessa teia e se perderam, outros porque se conformaram demais. Sobrevivíamos porque conseguimos mascarar nossos reais desejos.
Lembro que os psicólogos, que falavam sobre a importância do diálogo, eram citados, mas, também falavam que isso vinha de loucos, confusos e vagabundos.
Época ingrata em que nossos, poucos defensores, chegaram a sofrer mais do que nós.
Não obstante, vivíamos as formas rústicas de prazeres, com muito pouco, ou, nenhum dinheiro A mesma calça jeans, duas ou três camisetas falsificadas das grifes Pierre Cardin e Fila, no máximo, dois tênis. A única coisa razoavelmente barata era o cigarro, o Hollywood..
Nem sonhávamos com fast foods ou telefones sem fio...
Ambicionávamos apenas liberdade, respeito e paz.
No entanto, as coisas começaram a mudar quando já tínhamos passado dos 20 anos. A ditadura, ao menos oficialmente, se foi com o Figueiredo. Uma nova Constituição, mesmo em cordas bambas, surgiu e com ela, direitos.
Novamente surgem os psicólogos, dessa vez, junto com filósofos, pedagogos e sociólogos. Aos poucos, as Ciências Humanas projetava sua sombra..Agora, falavam em Piaget e Florestan Fernandes..Agora é a vez da compreensão..Tudo vai se abrindo. Época das esperadas aberturas..
Tais aberturas, aliadas ao progresso industrial e à consequente produção tecnológica afloram trazendo novos desejos..
Com o tempo, as gerações, podem comer melhor, não mais o básico. Podem várias usar roupas originais. Podem consumir..e tudo é rápido demais..
Comida rápida, relações intersubjetivas rápidas e quem é lerdo no trânsito é vaiado.
Famílias trabalham muito, para ter logo a vida que desejam.
O psico-tapa foi legado à ignorância, mas o desconforto continua.
Pais não mais batem ou gritam com seus pimpolhos, dão-lhes todo conforto, mas, muitos, se mantem ausentes e o que chamam de diálogo moderno, mais parece uma isenção de relação, de conivência e apelo ao mais fácil, ou seja, ceder ao "Sim". Se antes limite era a lei, agora não sabe o que fazer sem alguns limites e descobriu-se que são necessários. Por mais críticas que as margens recebam, são elas que levam o rio ao mar..
Escolas agora são inclusivas e obrigatórias, no entanto, a massificação abstraiu a essência criativa de muitos..
Existe conforto, tecnologia, melhor distribuição de renda, mas e felicidade? Felicidade não se compra num fast food e não vem de forma imediata. Ela é uma construção, uma forma completa de se chegar ao Eu. Ela não está nas buscas do Google.
Passamos de uma fase para outra, mas, ainda não há diálogo pois este culmina na transformação positiva a favor da existência e do bem estar pessoal de ambas as partes.
Ainda bem que não há mais psico-tapas, não obstante, permanecem as várias reprovações..
Como numa gangorra, ficamos indo aos extremos e ainda não acertamos o ponto de equilíbrio que poderia minimizar o desconforto ontológico.
Mas, uma coisa é preciso enfatizar, provavelmente estamos a caminho do diálogo verdadeiro. Ainda bem que agora os psicólogos são ouvidos e os loucos são os que dizem que o passado, da minha geração, era melhor. 
Célia Schultz

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